Este projeto pretende mapear e perceber a cobertura mediática da violência ginecológica e obstétrica em Portugal, apoiando-se em teorias dos media como o agenda-building, agenda-setting e framing, e através da análise de conteúdo das notícias e entrevistas com jornalistas. Para além disso, pretende explorar as perceções relativamente à cobertura mediática daqueles que se identificam com violência ginecológica e obstétrica e profissionais de saúde, comparando-as com as suas estórias pessoais. O nosso estudo resultará no desenvolvimento de 1) guidelines para os media, e 2) recomendações que possam melhorar as políticas públicas de saúde relacionadas com a prevenção da violência ginecológica e obstétrica.

A violência obstétrica é uma forma específica de violência contra pessoas reprodutivas que se baseia na premissa de que tanto a gravidez como o parto são eventos patológicos que precisam de intervenção clínica para serem bem-sucedidos. Isto acontece quando há intervenção clínica sem justificação e/ou consentimento informado. A violência ginecológica é um tipo de violência de género reconhecido pelo Conselho da Europa e apresenta-se sob a forma de discriminação e violência em consultas ginecológicas. No âmbito deste projeto, adotamos o conceito de violência ginecológica e obstétrica para discutir a discriminação e violência no acesso aos cuidados e serviços reprodutivos.

A nossa abordagem é interseccional, analisando as várias dimensões deste fenómeno em que questões de género, raça, (in)capacidades, ou desigualdades sociais convergem. Esta concetualização mais ampla inclui procedimentos como o aborto ou cuidados pós-aborto, e reconhece que a violência existe além da sala de partos. 

Apesar de haver resistências por parte dos profissionais de saúde no reconhecimento deste fenómeno, a violência obstétrica tem emergido nas agendas pública e mediática. Os media noticiosos são centrais na forma como a saúde é endereçada e percebida, e contribuem para a estruturação da esfera pública ao marcarem as agendas pública e política.

Embora exista uma preocupação crescente, nacional e internacional, sobre as intervenções não baseadas em evidência durante a gravidez e parto, o que justifica a atenção académica sobre o fenómeno da violência ginecológica e obstétrica, estes são ainda fenómenos pouco estudados. No caso da violência ginecológica, não há estudos sobre a sua disseminação no contexto português.

Com esta investigação, pretendemos contribuir para um debate informado através da ampla disseminação de resultados junto de várias audiências, e da possibilidade de desenvolver comparações entre países, especialmente no contexto Europeu. Um dos nossos objetivos é informar as políticas de saúde, uma prerrogativa feita pelos investigadores e decisores políticos. Isto irá contribuir para aumentar a consciencialização entre público leigo, decisores-políticos, jornalistas, e profissionais de saúde.